domingo, 23 de março de 2008

entre o ser e o estar

era pra ser belo. e foi. era pra ser bom. e foi. era pra ser. e era. antes de ter sido e depois. não mais.
pesar

noites tormentas - cheias. nomes tiram o sono. pessoas sequestro. o braço sobe sobre peso e o torpor da noite vagareza quando o inferno nos tira o tempo do nós. almas suspendem-se limbo aterro - aterrorizador. são corpos sufocados clamando ar. a noite para os fantasmas não tem fim. lutam ferozes homens pensamentos - massa horrenda que atravessa. pesadelos não têm hora. dor não tem hora. o monstro mora - ao lado.

quinta-feira, 13 de março de 2008

banquete de anões

as mulheres corriam
estavam desesperadas
seus afetos as abandonavam
e colhiam desregradas
no asfalto de suas cidades-fantasma
restos, qualquer coisa
de alimento
naquele dia
eram muitas
multidões
de mulheres
os homens comiam suas vísceras
depois de mortas de fome e cansaço
os homens devoraram seus corpos - ainda quentes - ainda moles, com a carne - ainda macia
mas não se satisfaziam
comiam mulheres mortas
ou semi-vivas
de fome de vida
e aquelas ainda vivas,
pediam seus lábios
lambiam suas feridas
se alimentavam da própria dor
da ferida do outro
já que das suas
jaziam
eles não se importavam
desde que houvesse um banquete
desde que houvesse comida exposta
eles não se davam conta
da pobre voracidade - vazia
da fome que não se saciava
da própria fome - e do outro

a luta dos nós

a corda ainda o enrolava pelo pescoço

e isso trazia falta de ar
passou sofregamente o corpo em volta do próprio braço
para tentar se libertar do golpe
quando mais se mexia, mais a corda embolava
era um emaranhado de nós,
e o corpo lembrava um peixe pescado na rede - visto quando ainda era menino
aquela visão do peixe embolado pela rede
naquela aridez
naquela solidão
fez com ele pensasse que a corda era uma forma de salvá-lo
e como ninguém sabia que estava ali
tinha todo o tempo do mundo para libertar-se
de si - enquanto contorcia-se
da corda que parecia um caminho naquela selva de nada
ninguém o sequestraria daquele mar

terça-feira, 11 de março de 2008

amputados


eram pra ser dois. parte um, parte outro. não eram. eram um corpo só. um pedaço de olho que se integrava numa bacia, dedos perdidos na boca - outra, pele colada pé sobre pé. movimentos que se fundiam tais quais liquidificados. únicos. uníssonos. palavras que se completavam - frases inteiras. o corpo se desintegrou. não o corpo, partes deles - agora dois, deslocados, partes descoladas. a mão que não mais se coloca e os pés completamente tortos - seguem rumos distantes. dizem que se perdem eventualmente e podem ser vistos ziguezagueando madrugadas afora - tentando achar nos escombros o resto do próprio dorso.

sexta-feira, 7 de março de 2008

entre a dor e o sublime

a questão não aparece antes de se mostrar. entendendo assim, é sempre prematuro prever. sou do tipo que ainda prefere acreditar e quando se engana sempre tenta justificar o erro com o próprio engano - erro do outro - ao que se refere e de si mesmo. mentira não é definitivamente o oposto da verdade. mentira é por si só aquilo que não é. ou seja, consegue ser a verdade daquele que cria para a inverdade a quem se destina. é e não é alguma coisa. verdade não é coisa a que se possa revelar e de certa forma, ainda toca o outro. tenho dúvidas sobre a extensão da malícia daquele que cria. acho que por muitas vezes é possível não ter o próprio entendimento do relevo. acho também que em muitos casos - é. como sou aquele que busca o entendimento - mesmo que o saiba verdadeiramente, penso que é possível investigar. não pretendendo mentir para mim mesma. e para o outro, evito o máximo que posso.
mas, o que assusta é o prazer da manipulação do fato, o reinventar, os novos contornos, os cinismos, a estética prazerosa do convencimento. diria kant, sublime - o belo estupidamente feio. o fato tão monstruosamente bem construído, que dá àquele que o pratica - uma sensação de quase transcendência, de poder, de superioridade - diante do que está velado, sob a sua condição, sob o seu eterno - suposto - controle.
morte aos fracos que se escondem por trás da perversidade. morte aos que já morreram pra si. morte aos que não se suportam vivos com suas capas frágeis, sob esqueletos falsos, sob estruturas esquivas, sob um sonho mórbido de perecerem crianças - órfãs de si mesmas - daqueles a quem não permitiram viver.

sábado, 1 de março de 2008

Da dor que tive

No começo do dia parecia ser apenas um mal estar. confuso, urgente e volátil e suficientemente passageiro para não se pensar mais no assunto. entornei minhas gotinhas preciosas e sorri depois de uma exaustiva aula de alongamento. alongaria até minha alma, pensei. tomei água para apagar o lodo despejado sobre mim, muita água como se fosse possível hidratar-me da solidão árida e companheira - diria oxímoro, minha atenta amiga aurê. sim, tentativa física e contorcida de equilíbrio. para secura, qualquer coisa líquida e límpida me apartaria. a força dos opostos, física pura instintiva ou não. foram precisas muitas histórias, glacê fresco sobre conteúdo solado, batido, queimado. um bolo de tudo. o glacê, doce sobreposto e apetitoso com cara de-todos-querem provar. o recheio, pleno, duro, composto. e o bolo explodiu sem festa. veio a tona, rompante, rasgando de dentro pra fora, descamando a superfície que de fato, poucos enganava. um golpe progressivo e o chão perdeu o piso, o teto foi para o espaço, náuseas. meu corpo não estava ali, minha alma não estava mais coberta de doces. era eu, dor, pequena, morta, arrastando-me sem controle, entregue a qualquer conta, ao desespero de minha existência, do medo do outro, do mundo que via espantada. era o que restava. foi mais forte, suplantou ao rosto, ao corpo, a máscara. deixei que me vissem, que catassem meus retalhos, deixei que me vissem fraca, desarmada, infeliz, em vômitos e convulsões para que me vissem humana.