Da dor que tive
No começo do dia parecia ser apenas um mal estar. confuso, urgente e volátil e suficientemente passageiro para não se pensar mais no assunto. entornei minhas gotinhas preciosas e sorri depois de uma exaustiva aula de alongamento. alongaria até minha alma, pensei. tomei água para apagar o lodo despejado sobre mim, muita água como se fosse possível hidratar-me da solidão árida e companheira - diria oxímoro, minha atenta amiga aurê. sim, tentativa física e contorcida de equilíbrio. para secura, qualquer coisa líquida e límpida me apartaria. a força dos opostos, física pura instintiva ou não. foram precisas muitas histórias, glacê fresco sobre conteúdo solado, batido, queimado. um bolo de tudo. o glacê, doce sobreposto e apetitoso com cara de-todos-querem provar. o recheio, pleno, duro, composto. e o bolo explodiu sem festa. veio a tona, rompante, rasgando de dentro pra fora, descamando a superfície que de fato, poucos enganava. um golpe progressivo e o chão perdeu o piso, o teto foi para o espaço, náuseas. meu corpo não estava ali, minha alma não estava mais coberta de doces. era eu, dor, pequena, morta, arrastando-me sem controle, entregue a qualquer conta, ao desespero de minha existência, do medo do outro, do mundo que via espantada. era o que restava. foi mais forte, suplantou ao rosto, ao corpo, a máscara. deixei que me vissem, que catassem meus retalhos, deixei que me vissem fraca, desarmada, infeliz, em vômitos e convulsões para que me vissem humana.