terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

ao passo que não dei


era pra ser um sinal apenas. uma chamada não atendida. não foi. deixei tocar insistentemente para ver quanto tempo vale sua espera e a minha. não suportei. atendi. a voz familiar do outro lado pedia - sempre pedia - ora por despejo, ora por súplica, ora por ingratidão. eu nem sempre atendia - aos contatos e aos pedidos. esse eu não neguei. o ruído na escala polifônica escolhido ainda é o que lhe identifica - talvez nem você mesmo o saiba - eu sei. tal qual filhote de pavlov - atendi súbito. não era dia pra isso. não foi. você forte - eu, com todos os motivos para estar forte - fraca. pausei, entreguei o jogo. virei peça fácil. me encolhi em mil malabarismos mentais para suportar o soco que vinha em direção do peito, direto dos ouvidos. ouvi, falei. falei mais do que deveria. não era pra tanto. preciso ainda treinar para suportar o tremor dos lábios quando suas palavras me invadem. não suportei ao toque. não suportei a pressão. perdi o ar - rar-efeito, raroefeito da solidão. o chão me escapa, as pernas se retorcem no caminho - hei de achar os trilhos - hei de enquadrar coração, espinha e mente pra seguir sem pestanejar - espinha ereta e o coração tranquilo. ainda não sei.já deveria ter aprendido.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Desaniversário


Fica decretado a partir da data que o refere - Todo dia 19. Que é pra eu não esquecer. Que papai noel não existe, que coelhinho da páscoa também não. Que a camada de Ozônio está sim com problemas, que o branco é algum momento a soma de todas as cores e que a mulher de algodão nunca existiu.
entre o ocre nuvens e o azul mar


O horizonte é extenso, mas percebo que existe uma linha tênue entre o chão e o céu. Como se ambos se encontrassem no caminho e eu estou ali, no meio. Naquela linha que divide e que nunca posso alcançar. É um espaço entre o nada e o lugar nenhum. Não se pode chegar. Aquela linha que divide as texturas, a cobertura e o SOB se mistura. Porque não é o chão que procuro, é o céu, mas estando no chão, o céu é simplesmente uma promessa inalcançável. Um roteiro sem fim, um desenho diabólico que me faceia entre o ocre nuvens e o azul mar - que é mar, mas me resseca, me queima, me abandona....sem referências, sem vida.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

D'ex-encontro

A noite ainda me rompe. Lá fora, silêncio. Aqui dentro – tormenta.
Não posso dormir, nem tampouco ficar acordada. É um estado quase limbo. As palavras me assaltam e como não posso fugir delas, me entrego.

Noite de carnaval – domingo. Nasci num domingo de carnaval, mas é como se a data de certa forma me fosse um luto. A vida talvez esteja fora dela. Sair do útero é perder o que te conforta. E estar no mundo não é tão acolhedor assim.

Hoje sou o mundo de dois pequenos. Rompi com espaço e o tempo em que não mais me pertenço. Migrei de estado e não posso mais reivindicar o que era antes. Estou do lado de cá: sou mundo e luto ao mesmo tempo. O meu e o outro.

Os corpos agitam-se em espasmos noite adentro. O meu – inerte. Invisto no meu corpo como se protege a porta de um templo. Revisto as gavetas e encontro velhos poemas, documentos, cópias largadas de um passado recente. Fotos, espelhos de uma história. Rompo e busco sinais como um elástico desgastado e frouxo de convicções. Assisto modelos na TV e pesquiso formas de cumplicidade entre a noite e o mar – que sacode em espumas, areia e vento.

Penso nas viagens que não fizemos, nas coisas deixadas pra trás, nos planos, nos projetos, nas paredes pintadas por nós. Penso no valor da verdade e da mentira, lembro-me de Cartola e Noel Rosa, de vinho tinto, das noites de frio, no sexo absolutamente vadio, nas conversas de boteco. Penso na criança que viria e do ritual na floresta, penso no que ainda não fizemos e que nunca faríamos, penso nas lágrimas, na boca aberta e nos beijos eternos. Penso nos sapatos, nos anéis, nas palavras – sempre palavras, somos amantes delas. Nosso terceiro ato. Ainda restam os florais, virados com o rótulo para a parede que é pra eu não esquecer que tentamos alguma vez, de alguma forma, ainda que eu não queira conhecer a fórmula.

Devolvo tudo, realinhamos. Dissemos um ao outro que era possível nos dividir. Em roupas, objetos e pensamentos. Nos dividimos em corpos, nos dividimos em senhas, em códigos de internet, em imagens, em caminhos. Mas, a história é uma massa, um emaranhado, um bolo, um rolo compressor. Não há como ignorar, pisar em cima, apagar.

Essa não dá pra devolver, não dá pra dividir: é nossa. Sempre.