D'ex-encontro
A noite ainda me rompe. Lá fora, silêncio. Aqui dentro – tormenta.
Não posso dormir, nem tampouco ficar acordada. É um estado quase limbo. As palavras me assaltam e como não posso fugir delas, me entrego.
Noite de carnaval – domingo. Nasci num domingo de carnaval, mas é como se a data de certa forma me fosse um luto. A vida talvez esteja fora dela. Sair do útero é perder o que te conforta. E estar no mundo não é tão acolhedor assim.
Hoje sou o mundo de dois pequenos. Rompi com espaço e o tempo em que não mais me pertenço. Migrei de estado e não posso mais reivindicar o que era antes. Estou do lado de cá: sou mundo e luto ao mesmo tempo. O meu e o outro.
Os corpos agitam-se em espasmos noite adentro. O meu – inerte. Invisto no meu corpo como se protege a porta de um templo. Revisto as gavetas e encontro velhos poemas, documentos, cópias largadas de um passado recente. Fotos, espelhos de uma história. Rompo e busco sinais como um elástico desgastado e frouxo de convicções. Assisto modelos na TV e pesquiso formas de cumplicidade entre a noite e o mar – que sacode em espumas, areia e vento.
Penso nas viagens que não fizemos, nas coisas deixadas pra trás, nos planos, nos projetos, nas paredes pintadas por nós. Penso no valor da verdade e da mentira, lembro-me de Cartola e Noel Rosa, de vinho tinto, das noites de frio, no sexo absolutamente vadio, nas conversas de boteco. Penso na criança que viria e do ritual na floresta, penso no que ainda não fizemos e que nunca faríamos, penso nas lágrimas, na boca aberta e nos beijos eternos. Penso nos sapatos, nos anéis, nas palavras – sempre palavras, somos amantes delas. Nosso terceiro ato. Ainda restam os florais, virados com o rótulo para a parede que é pra eu não esquecer que tentamos alguma vez, de alguma forma, ainda que eu não queira conhecer a fórmula.
Devolvo tudo, realinhamos. Dissemos um ao outro que era possível nos dividir. Em roupas, objetos e pensamentos. Nos dividimos em corpos, nos dividimos em senhas, em códigos de internet, em imagens, em caminhos. Mas, a história é uma massa, um emaranhado, um bolo, um rolo compressor. Não há como ignorar, pisar em cima, apagar.
Essa não dá pra devolver, não dá pra dividir: é nossa. Sempre.

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