quinta-feira, 10 de abril de 2008

Queiroz e outros tantos mais (inclusive eu)

crianças dormem inocentes

do outro lado - jaz

frio

não mais sente

dorme definitivamente

caiu de dor

tombou

para não mais acordar

o corpo

presência contumaz

do que não é mais

e foi

para onde não sabemos

é presença pra lembrar

de sua própria ausência

foi pra não mais voltar

sem despedidas

foi

no espaço interrompido

dos projetos

que não são mais

foi

para janelas

que não sabemos quais

foi

sem comunicação prévia

sem cartas

sem diálogos de adeus

foi

deixou pra trás

rastros na história

memória

amores

afetos

trajetórias

e enquanto somos

prantos

apenas estamos

testemunhas oculares e vivenciais

do que somos - enquanto ainda - apenas ainda, estamos.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Bocas e sinais

Sinal vermelho. A massa atravessa observada pelos olhares atentos a espera. Um homem não. Fica, silencioso escorado no poste do semáforo. Coloca suas mãos coladas aos ouvidos, primeiro o esquerdo, depois o direito. Segue. A mulher esbarra com sua bolsa metálica em outra que tropeça enquanto tenta manter a forçosa elegância. Dois homens - deselegantes fixam-se nos andares femininos, mais propriamente nas partes baixas, coxas, nádegas – acompanham olhares vívidos e cúmplices – sorriem - primeiro olham, indicam com a cabeça repetidamente até o outro concordar – sorriem continuamente, e falam alto – ê bundão! Gargalhada na seqüência. Só outro homem do lado esquerdo da calçada acompanha e entende. Um mulher abaixa a cabeça e parece se envergonhar, tímida. A outra parece gostar e caminha mais rebolativa. Do outro lado da rua, rente a praça duas senhoras reúnem-se afobadas a um grupo que evocava a ira de Deus – e a pena dos seus Deuses furiosos contra aqueles que se rebelam – inclusive os dois rapazes que guardam suas presas indiferentes ao grupo. Um senhor de óculos, aro preto, vidros garrafais aparenta 45, acena para a multidão enfileirada sob a faixa pedestre e diz: - venham para a salvação....uma senhora vira curiosa e pára, de longe. É provável que pelo olhar teso e triste pensa nos seus pecados, ...tanto tempo – agora talvez já redimidos, mas não demora muito e segue ajeitando o cabelo que cai sobre o rosto. Uma mulher jovem, com ares de intelectual passa com uma bolsa preta couro legítimo arqueada em saltos finíssimos – advogada em dia de audiência, diria o senso comum. Passa com pressa e ignora a praça. Não tem tempo para a metafísica em dias pragmáticos. Surge um rapaz com boné de lado, calça jeans e bolsa de tecido cru, atravessada. Esse observa. Ri um pouco e propõe uma fala no microfone no palanque improvisado. - Quer dar seu testemunho? pergunta a moça. Ele diz que quer só umas palavras. Certamente não deve ser seu testemunho e fica na fila a espera do espetáculo. A platéia se agita. Um cachorro deita ao lado da árvore, da árvore mais alta e fresca. O dia ferve – quente – primavera de verão, todos dizem entre os preguiçosos passos largos: dia quente, dia quente. Credo! Quem se diverte é o vendedor de picolé, e também da água de côco. Os botecos mais próximos já servem uma gelada. Um senhor de mais ou menos 60 e outro de quase isso trocam cartas e fumam desde cedo - é a aposentadoria, dizem e riem, mas sem felicidade no rosto, um riso cínico, descrente, daqueles que – enquanto sorriem - uma sobrancelha sobe enquanto a boca repuxa pelo músculo no canto até ficar curvada, e ao rirem, os olhos tornavam-se para baixo e a gargalhada sobe apenas da garganta, com esforço de quase um pigarro. Um carro passa apressado e não pára na faixa cidadã. Revolta. Rapidamente umas cinco pessoas gritam para o homem que para logo na frente pra se desculpar. Tô atrasado – grita, tentando se justificar e seguir apressado. No mesmo instante tudo se desfez –nada. Qualquer coisa é motivo e ao mesmo tempo se desfaz no movimento convulsivo de agrupamentos involuntários. Um casal caminha alheio com uma criança no colo, contorcendo-se em volta da mesa disposta na calçada para os senhores, uma barata atravessa o caminho e o homem a mata com a ponta do sapato, sem dor. A mulher suspira aliviada, a criançada que saia da escola faz festa com um caixa de sapato, um moça com pálpebras de pintura azul e boca vermelha desmanchada surge numa sacada – Vê a rua, a praça, a calçada, a gente toda que passa – e triste - sorri, fecha a cortina e sai.


domingo, 23 de março de 2008

entre o ser e o estar

era pra ser belo. e foi. era pra ser bom. e foi. era pra ser. e era. antes de ter sido e depois. não mais.
pesar

noites tormentas - cheias. nomes tiram o sono. pessoas sequestro. o braço sobe sobre peso e o torpor da noite vagareza quando o inferno nos tira o tempo do nós. almas suspendem-se limbo aterro - aterrorizador. são corpos sufocados clamando ar. a noite para os fantasmas não tem fim. lutam ferozes homens pensamentos - massa horrenda que atravessa. pesadelos não têm hora. dor não tem hora. o monstro mora - ao lado.

quinta-feira, 13 de março de 2008

banquete de anões

as mulheres corriam
estavam desesperadas
seus afetos as abandonavam
e colhiam desregradas
no asfalto de suas cidades-fantasma
restos, qualquer coisa
de alimento
naquele dia
eram muitas
multidões
de mulheres
os homens comiam suas vísceras
depois de mortas de fome e cansaço
os homens devoraram seus corpos - ainda quentes - ainda moles, com a carne - ainda macia
mas não se satisfaziam
comiam mulheres mortas
ou semi-vivas
de fome de vida
e aquelas ainda vivas,
pediam seus lábios
lambiam suas feridas
se alimentavam da própria dor
da ferida do outro
já que das suas
jaziam
eles não se importavam
desde que houvesse um banquete
desde que houvesse comida exposta
eles não se davam conta
da pobre voracidade - vazia
da fome que não se saciava
da própria fome - e do outro

a luta dos nós

a corda ainda o enrolava pelo pescoço

e isso trazia falta de ar
passou sofregamente o corpo em volta do próprio braço
para tentar se libertar do golpe
quando mais se mexia, mais a corda embolava
era um emaranhado de nós,
e o corpo lembrava um peixe pescado na rede - visto quando ainda era menino
aquela visão do peixe embolado pela rede
naquela aridez
naquela solidão
fez com ele pensasse que a corda era uma forma de salvá-lo
e como ninguém sabia que estava ali
tinha todo o tempo do mundo para libertar-se
de si - enquanto contorcia-se
da corda que parecia um caminho naquela selva de nada
ninguém o sequestraria daquele mar

terça-feira, 11 de março de 2008

amputados


eram pra ser dois. parte um, parte outro. não eram. eram um corpo só. um pedaço de olho que se integrava numa bacia, dedos perdidos na boca - outra, pele colada pé sobre pé. movimentos que se fundiam tais quais liquidificados. únicos. uníssonos. palavras que se completavam - frases inteiras. o corpo se desintegrou. não o corpo, partes deles - agora dois, deslocados, partes descoladas. a mão que não mais se coloca e os pés completamente tortos - seguem rumos distantes. dizem que se perdem eventualmente e podem ser vistos ziguezagueando madrugadas afora - tentando achar nos escombros o resto do próprio dorso.

sexta-feira, 7 de março de 2008

entre a dor e o sublime

a questão não aparece antes de se mostrar. entendendo assim, é sempre prematuro prever. sou do tipo que ainda prefere acreditar e quando se engana sempre tenta justificar o erro com o próprio engano - erro do outro - ao que se refere e de si mesmo. mentira não é definitivamente o oposto da verdade. mentira é por si só aquilo que não é. ou seja, consegue ser a verdade daquele que cria para a inverdade a quem se destina. é e não é alguma coisa. verdade não é coisa a que se possa revelar e de certa forma, ainda toca o outro. tenho dúvidas sobre a extensão da malícia daquele que cria. acho que por muitas vezes é possível não ter o próprio entendimento do relevo. acho também que em muitos casos - é. como sou aquele que busca o entendimento - mesmo que o saiba verdadeiramente, penso que é possível investigar. não pretendendo mentir para mim mesma. e para o outro, evito o máximo que posso.
mas, o que assusta é o prazer da manipulação do fato, o reinventar, os novos contornos, os cinismos, a estética prazerosa do convencimento. diria kant, sublime - o belo estupidamente feio. o fato tão monstruosamente bem construído, que dá àquele que o pratica - uma sensação de quase transcendência, de poder, de superioridade - diante do que está velado, sob a sua condição, sob o seu eterno - suposto - controle.
morte aos fracos que se escondem por trás da perversidade. morte aos que já morreram pra si. morte aos que não se suportam vivos com suas capas frágeis, sob esqueletos falsos, sob estruturas esquivas, sob um sonho mórbido de perecerem crianças - órfãs de si mesmas - daqueles a quem não permitiram viver.

sábado, 1 de março de 2008

Da dor que tive

No começo do dia parecia ser apenas um mal estar. confuso, urgente e volátil e suficientemente passageiro para não se pensar mais no assunto. entornei minhas gotinhas preciosas e sorri depois de uma exaustiva aula de alongamento. alongaria até minha alma, pensei. tomei água para apagar o lodo despejado sobre mim, muita água como se fosse possível hidratar-me da solidão árida e companheira - diria oxímoro, minha atenta amiga aurê. sim, tentativa física e contorcida de equilíbrio. para secura, qualquer coisa líquida e límpida me apartaria. a força dos opostos, física pura instintiva ou não. foram precisas muitas histórias, glacê fresco sobre conteúdo solado, batido, queimado. um bolo de tudo. o glacê, doce sobreposto e apetitoso com cara de-todos-querem provar. o recheio, pleno, duro, composto. e o bolo explodiu sem festa. veio a tona, rompante, rasgando de dentro pra fora, descamando a superfície que de fato, poucos enganava. um golpe progressivo e o chão perdeu o piso, o teto foi para o espaço, náuseas. meu corpo não estava ali, minha alma não estava mais coberta de doces. era eu, dor, pequena, morta, arrastando-me sem controle, entregue a qualquer conta, ao desespero de minha existência, do medo do outro, do mundo que via espantada. era o que restava. foi mais forte, suplantou ao rosto, ao corpo, a máscara. deixei que me vissem, que catassem meus retalhos, deixei que me vissem fraca, desarmada, infeliz, em vômitos e convulsões para que me vissem humana.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

ao passo que não dei


era pra ser um sinal apenas. uma chamada não atendida. não foi. deixei tocar insistentemente para ver quanto tempo vale sua espera e a minha. não suportei. atendi. a voz familiar do outro lado pedia - sempre pedia - ora por despejo, ora por súplica, ora por ingratidão. eu nem sempre atendia - aos contatos e aos pedidos. esse eu não neguei. o ruído na escala polifônica escolhido ainda é o que lhe identifica - talvez nem você mesmo o saiba - eu sei. tal qual filhote de pavlov - atendi súbito. não era dia pra isso. não foi. você forte - eu, com todos os motivos para estar forte - fraca. pausei, entreguei o jogo. virei peça fácil. me encolhi em mil malabarismos mentais para suportar o soco que vinha em direção do peito, direto dos ouvidos. ouvi, falei. falei mais do que deveria. não era pra tanto. preciso ainda treinar para suportar o tremor dos lábios quando suas palavras me invadem. não suportei ao toque. não suportei a pressão. perdi o ar - rar-efeito, raroefeito da solidão. o chão me escapa, as pernas se retorcem no caminho - hei de achar os trilhos - hei de enquadrar coração, espinha e mente pra seguir sem pestanejar - espinha ereta e o coração tranquilo. ainda não sei.já deveria ter aprendido.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Desaniversário


Fica decretado a partir da data que o refere - Todo dia 19. Que é pra eu não esquecer. Que papai noel não existe, que coelhinho da páscoa também não. Que a camada de Ozônio está sim com problemas, que o branco é algum momento a soma de todas as cores e que a mulher de algodão nunca existiu.
entre o ocre nuvens e o azul mar


O horizonte é extenso, mas percebo que existe uma linha tênue entre o chão e o céu. Como se ambos se encontrassem no caminho e eu estou ali, no meio. Naquela linha que divide e que nunca posso alcançar. É um espaço entre o nada e o lugar nenhum. Não se pode chegar. Aquela linha que divide as texturas, a cobertura e o SOB se mistura. Porque não é o chão que procuro, é o céu, mas estando no chão, o céu é simplesmente uma promessa inalcançável. Um roteiro sem fim, um desenho diabólico que me faceia entre o ocre nuvens e o azul mar - que é mar, mas me resseca, me queima, me abandona....sem referências, sem vida.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

D'ex-encontro

A noite ainda me rompe. Lá fora, silêncio. Aqui dentro – tormenta.
Não posso dormir, nem tampouco ficar acordada. É um estado quase limbo. As palavras me assaltam e como não posso fugir delas, me entrego.

Noite de carnaval – domingo. Nasci num domingo de carnaval, mas é como se a data de certa forma me fosse um luto. A vida talvez esteja fora dela. Sair do útero é perder o que te conforta. E estar no mundo não é tão acolhedor assim.

Hoje sou o mundo de dois pequenos. Rompi com espaço e o tempo em que não mais me pertenço. Migrei de estado e não posso mais reivindicar o que era antes. Estou do lado de cá: sou mundo e luto ao mesmo tempo. O meu e o outro.

Os corpos agitam-se em espasmos noite adentro. O meu – inerte. Invisto no meu corpo como se protege a porta de um templo. Revisto as gavetas e encontro velhos poemas, documentos, cópias largadas de um passado recente. Fotos, espelhos de uma história. Rompo e busco sinais como um elástico desgastado e frouxo de convicções. Assisto modelos na TV e pesquiso formas de cumplicidade entre a noite e o mar – que sacode em espumas, areia e vento.

Penso nas viagens que não fizemos, nas coisas deixadas pra trás, nos planos, nos projetos, nas paredes pintadas por nós. Penso no valor da verdade e da mentira, lembro-me de Cartola e Noel Rosa, de vinho tinto, das noites de frio, no sexo absolutamente vadio, nas conversas de boteco. Penso na criança que viria e do ritual na floresta, penso no que ainda não fizemos e que nunca faríamos, penso nas lágrimas, na boca aberta e nos beijos eternos. Penso nos sapatos, nos anéis, nas palavras – sempre palavras, somos amantes delas. Nosso terceiro ato. Ainda restam os florais, virados com o rótulo para a parede que é pra eu não esquecer que tentamos alguma vez, de alguma forma, ainda que eu não queira conhecer a fórmula.

Devolvo tudo, realinhamos. Dissemos um ao outro que era possível nos dividir. Em roupas, objetos e pensamentos. Nos dividimos em corpos, nos dividimos em senhas, em códigos de internet, em imagens, em caminhos. Mas, a história é uma massa, um emaranhado, um bolo, um rolo compressor. Não há como ignorar, pisar em cima, apagar.

Essa não dá pra devolver, não dá pra dividir: é nossa. Sempre.